O céu parece ser o limite para muitos atletas. "A busca da superação está na nossa natureza", explica um mental coach, mas o gosto pelo limite pode ter outras explicações. Há quem fale em compensação emocional. Elogiado por uns, criticados por outros, estes atletas desafiam o corpo ao extremo. Na consciência ouve-se a voz de um cardiologidta: "Não há homens de ferro".

Pheidíppides correu os 40km que ligam as cidades de Maratona e Atenas para dar a notícia da vitória dos gregos sobre persas. Estávamos no ano 490 AC. Chegado ao destino, exausto, limitou-se a dar a boa nova: “Vencemos”. E caiu para o lado, morto. Passaram mais de 2500 anos. Hoje, há homens que correm 422km, depois de nadar 38 e pedalar 1800km. É o caso de Miguel Carneiro que terminou a Deca Ultra Triathlon Continous, no México, em 256 horas 47 minutos e 28 segundos.

José Pedro Canela
Miguel Carneiro

Alucinações, garganta queimada e os pés em sangue. Estes foram apenas alguns dos obstáculos que o triatleta português teve de enfrentar em Leon, no México. Miguel Carneiro meteu na cabeça que faria 10 vezes a distância Ironman sem paragem de cronómetro. E fez. A explicação, para Jorge Boim, Mental Coach, é mais humana do que possa parecer: “Está na nossa natureza a busca permanente da superação, do chegar mais além, seja no desporto, seja noutra qualquer área da vida.”

Está no nosso ADN esta insatisfação e há quem a canalize para as mais variadas áreas. Miguel decidiu transportar esse desejo para o triatlo, desafiando alguns limites na prova mexicana. Começou logo pelo excesso de cloro. “No meu caso que fiz 15 horas de natação, fiquei com a garganta queimada de respirar assim como a parte interna do nariz. Andei com voz rouca, dores de garganta e com o nariz cheio de sangue por dentro”. O cenário não é bonito, mas céu parece ser o limite. Hélder Dores, professor e cardiologista, avisa que “não há homens de ferro. Há atletas melhor preparados, com mais resistência e resiliência, permitindo aumentar a tolerância às exigências destas provas, mas todos têm limites”.

Vivemos na era do desafio permanente. Jorge Boim explica que “nos últimos anos temos assistido a um desenvolvimento exponencial de tudo o que está relacionado com a preparação dos atletas, seja em termos tecnológicos, seja na noção que os atletas têm de que precisam de uma equipa multidisciplinar à sua volta para trabalharem além do treino físico. Passámos a olhar mais e melhor para a massagem, a nutrição ou o mental coaching”. Estes desenvolvimentos convenceram o atleta de que qualquer recorde pode cair, ou qualquer distância pode ser alcançada.

É no acreditar que começa a superação. José Pedro Canela disputou o campeonato do mundo de “Double Ultra Triathlon” e assume que “para além do óbvio cansaço acumulado, é o desgaste psicológico que determina o sucesso da prova”. O triatleta completou a dupla distância Ironman em 23h03m01s e explica como conseguiu: “costumo guardar mensagens de mim para mim para ir ouvindo enquanto estou em prova em alturas específicas. São essas mensagens que me mantêm no rumo certo até ao fim. Saber antever as necessidades e ir suprindo as mesmas é a outra chave para o sucesso. Isso e estar bem treinado. No meu caso, estar bem motivado”, explica.

Miguel Carneiro e José Pedro Canela fazem parte de um grupo restrito de homens que já submeteram o corpo a condições extremas. Talvez por isso não sobrem elogios e criticas aos desafios que conseguiram cumprir. No mundo do triatlo, há quem olhe para estes feitos como estando já fora da dimensão desportiva, vendo nas ultra distância uma procura de reconhecimento que não são conseguidas nas distâncias ditas tradicionais. Às críticas, José Pedro Canelas responde: “criticar estas distâncias é o mesmo que o Usain Bolt, que corre 100 e 200 metros, criticar o Bekele ou o Kipchogue por correrem a maratona”. Os “super-atletas” pedem liberdade. “Tenhamos respeito pelos gostos e preferências dos outros. Cada um faz as provas que quer e o que a comunidade havia de fazer, em seu benefício, era apoiar sem olhar a quem”, explica José Pedro Canela. Onde uns pedem respeito, outros exigem consciência. A ponte entre estes dois extremos é construída pela medicina.

(ARTIGO COMPLETO NA EDIÇÃO Nº13)