Quanto vale uma medalha numa sociedade de insatisfeitos? A psicóloga Inês Vigário alerta que tendemos a avaliar aquilo que somos e valemos em função dos resultados. Teresa Cardoso, “Mulher de Ferro”, confessa que se cansou dessa correria.

“Pela primeira vez desliguei o chip e disfrutei da prova. Disse para mim mesma: tens de tentar ser feliz a praticar desporto e não andar sempre à procura de resultados”. É impossível ficar indiferente à confissão de Teresa Cardoso no final do “Homem de Ferro” de Frankfurt.

Teresa Cardoso e Ana leal no Setúbal Triathlon

As palavras da mulher que trocou o remo pelo triatlo abrem caminho à reflexão. Parece que vivemos num mundo em que toda a gente quer colocar-se à prova, porquê? Inês Vigário, psicóloga do desporto, exercício e performance explica que partilhamos o nosso dia a dia numa sociedade “onde somos incentivados a viver num princípio de insatisfação face ao nosso desempenho”. Se as coisas correm bem, “tendemos a não nos apropriarmos emocionalmente do momento e focamos logo o que vem a seguir”. Se, por outro lado, temos resultados q.b, temos a tendência para “não avaliar construtivamente o que correu bem e o que existe a melhorar”. Segundo a explicação da especialista, é uma espécie de cultura do fracasso, porque “colocamos quase sempre a tónica nos erros e falhas que cometemos”.

A triatleta que fez mais de 13 horas nesta última prova alemã, quando tinha feito uma estreia com 11h05 em Roth, conhece bem este enquadramento psicológico descrito por Inês Vigário. A psicóloga alerta para o facto de termos a tendência para ganharmos um “entendimento daquilo que somos e valemos em função dos resultados que obtemos”. O alerta da especialista encontra eco numa frase que é repetida muitas vezes quando o desporto se torna uma obsessão: “Impressiona os outros por aquilo que és, não pelos resultados que tens”. A verdade é que o triatlo, como qualquer desporto individual, tende a ser procurado por praticantes que “em termos da sua personalidade são mais introvertidos, perfeccionistas, independentes e mais capazes de esforço e fazer sacrifícios”.

Teresa Cardoso conta que se habituou, desde os 15 anos, a viver o desporto em função dos resultados que tinha. Esteve enquadrada na equipa de alta competição do remo e quando procurou o triatlo foi em busca “de mais adrenalina”. Daí à obsessão é, por vezes, um salto. E quais são os perigos de tornar a prática desportiva numa obsessão? “Sensação de perda de liberdade, mais disponibilidade para lesões, diminuição do prazer que se sente ao praticar a modalidade e a possibilidade de se desenvolver uma dependência (diagnosticável) face à prática desportiva”, explica Inês Vigário.

Num desporto que exige tantas horas de treino e disciplina, é necessário ter bem presente aquilo que procuramos. A realidade é que nem sempre procuramos o mesmo. Os contextos alteram-se. A nossa predisposição também. Foi isso que aconteceu com Teresa Cardoso e não só. A triatleta do norte lembrou-se na Alemanha do papel de Bruno Pais no triatlo longo de Setúbal. “Pensei muito na atitude do Bruno, um ex-olímpico que correu ali entre amadores, só pelo prazer de fazer triatlo. E pensei nisso porque estas 13h20 em Frankfurt colocaram-me um sorriso na cara que outras provas não colocaram”. Teresa é farmacêutica e confessa que nem sempre treina tanto quanto desejaria. A média ronda agora as 12 horas semanais, mais coisa menos coisa. “Nem sempre consigo treinar o que gostaria, mas aceito”, explica.

Aceitar parece ser um verbo importante. Que é como quem diz, compreender as circunstâncias. Fernando Santos, professor e teórico sobre o desporto positivo, defendeu há dias, numa conferência promovida pela Federação Portuguesa de Remo, que é “errada a ideia de que não podemos ganhar todos”. Podemos. “Ganhamos é coisas diferentes. Ganhamos, por exemplo, competências para a vida e estratégias para viver melhor”, explicou. É essa a grande vitória de todos os desportistas.