OPINIÃO
JOÃO PEREIRA
Não falo com base em estudos nem em estatísticas. Falo daquilo que fui vendo ao longo da minha carreira. Aconteceu às vezes sem conta, até entre irmãos de sexos diferentes. Sempre me fez pensar no porquê.
A verdade é que uma boa relação entre irmãos reúne ingredientes muito especiais. Normalmente, o mais novo cresce a admirar o mais velho. Partilham vivências, hábitos, valores e acabam por desenvolver gostos semelhantes. Depois há algo difícil de explicar: uma confiança absoluta e uma vontade sincera de ver o outro crescer. Quando isso acontecer, crie-se um ambiente perfeito para ambos evoluírem.
Durante muitos anos tive o privilégio de competir ao mais alto nível e de assistir de perto a um dos melhores exemplos disso: os irmãos Brownlee.
O Alistair e o Jonathan marcaram uma geração. Eram atrações extraordinárias individualmente, mas juntos se tornaram ainda mais fortes. Havia quase a sensação de que prefeririam perder um para o outro do que para qualquer adversário. Protagonizaram momentos incríveis de superação, de espírito de equipe e de companheirismo.
No triatlo, apesar de ser uma modalidade individual, há momentos em que o trabalho em equipe pode fazer toda a diferença. Fechar um ataque no ciclismo, colaborar para alcançar um grupo da frente, entrar numa fuga ou controlar o ritmo da corrida são decisões que podem influenciar o avanço de uma prova. Quando existe uma relação de confiança construída desde pequenos, muitas dessas decisões tomam quase de forma natural.
Mas talvez o maior ganho nem seja esse.
É uma competitividade saudável que se cria diariamente. Aquele treino em que ninguém quer ficar para trás. A vontade de fazer mais uma reprodução porque o outro conseguiu. A capacidade de puxar um pelo outro nos dias bons e, sobretudo, nos dias menos bons.
Em Portugal também começamos a assistir a exemplos muito interessantes. Os irmãos Batista são um deles. Acredito que, se conseguirmos continuar a potencializar-se mutuamente e trabalhar em equipe, podemos escrever uma história muito bonita no triatlo português. Quem sabe até repetir aquilo que já viu acontecer a nível mundial: dois irmãos a lutar pelos pódios nas maiores competições internacionais.
Curiosamente, no meu caso, uma pessoa que mais contribuiu para a minha carreira nunca fez um triatlo.
A minha irmã sempre foi um dos pilares do meu percurso. Nunca treinei comigo e nem nunca disputou uma prova. Mas durante muitos anos foi ela quem tratou de quase tudo aquilo que acontecia fora da competição. A logística, a organização, o planejamento, os detalhes que me permitem concentrar-se apenas em nadar, pedalar e correr.
Enquanto eu estava focado em competir nos palcos mundiais, ela garantia que tudo o resto funcionaria.
E olhando para trás, percebo que muitas das conquistas que celebro também lhe pertencem. Foram vitórias construídas em conjunto. Sou-lhe profundamente grato por isso.
No desporto fala-se muitas vezes da importância dos treinadores, dos colegas de equipa e dos amigos. E com razão. Mas há uma força especial na relação entre irmãos.
Talvez porque não seja apenas uma parceria desportiva. É uma ligação construída ao longo de uma vida inteira. Feita de cumplicidade, de investigação, de desafios constantes e, acima de tudo, de um desejo genuíno de ver o outro vencer.
Quando essa energia é canalizada na direção certa, o resultado pode ser muito maior do que a soma de dois atletas.
Podemos transformar dois irmãos numa equipe capaz de levar cada um deles muito mais longe do que alguma vez conseguiria sozinhos.